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Artigo 02 de abril de 2026

Como escrevi «A cor da tua sombra» por Eduardo Quive

Querida pessoa, como gostaria de tratar-te pelo nome. Mas olha, uma vez, andando pelo interior de Moçambique, uma mulher disse-me uma coisa dessas que não se esquecem: não se pode adivinhar um nome. Pelo que, vou esperar que me digas o teu nome, num encontro que espero que aconteça em breve.

Quero contar-te como tudo começou até chegar ao romance A cor da tua sombra. Mas já te aviso: a história é longa, com voltas, algum cansaço, noites mal dormidas. E viagens. Muitas. Porque, tal como os melhores livros que li — quase sempre em comboios ou autocarros —, este também foi sendo imaginado em trânsito, entre um lugar e outro.

Como falar de um livro sem falar de quem o escreveu? Não sei se dá. Embora, idealmente, os livros é que deviam importar.

Quanto a mim, tudo começou com o som, a paisagem e a imaginação. O primeiro livro que li foi a minha avó. As histórias vinham da sua voz, do seu rosto, do seu corpo todo a contar. E daquele quintal de terra castanha, uma palhota no centro, árvores e plantas espalhadas como se o mundo tivesse sido ali pousado sem pressa.

A vovó Carolina — agora já posso dizer o nome, porque nome não se adivinha, lembras-te? — era uma exímia contadora de histórias. Elas do seu corpo, em harmonia com os cajueiros, os coqueiros, as mangueiras, a mafurreira, a seringueira, as rainhas-da-noite… tudo conspirava.

Depois, quando a história acabava, ficava o eco — canções, palavras que eu não entendia bem, mas achava bonitas, ditas naquele xichangana sofisticado. Já ouviste? É língua do sul de Moçambique, em Gaza e Maputo a maioria das gentes fala. Eu não falava. Ou melhor, os meus pais não me deixaram falar. Mas essa é uma história que merece ser contada à volta da fogueira. Junta-te a mais pessoas e convidem-me para contar!

Finalmente revelo-te como escrevi A cor da tua sombra.

Estávamos em Março de 2023. Fui desafiado a escrever uma história de amor. Ao mesmo tempo, surgiu a oportunidade de participar numa oficina com Chimamanda Ngozi Adichie, no Gana e era preciso enviar um excerto.

Sentei-me numa dessas noites em que toda a gente dorme e o silêncio faz o resto. Lá em casa é assim: só quando o mundo adormece é que o escritor acorda.

Comecei por Anchia. Veio-me logo: jovem, independente, instruída, a viver sozinha num apartamento no centro de Maputo. Uma fantasia. Porque isso, em Moçambique, não é coisa comum. E se fosse, teria de ser herdeira dessas famílias que ficaram com os restos do tempo colonial. Mas Anchia não é disso.

Era para ser só um conto. Mas não consegui parar. Quando dei conta, já havia mais vida, mais lugares… a personagem principal já tinha irmãos, um deles Eurípedes. A ele, confesso, afeiçoei-me. Ele exigiu falar na primeira pessoa, ao contrário de Anchia que deixou que alguém narrasse a sua história.

E nada mais te conto. Não me perdoarias o spoiler muito mal feito. Vai ao livro.

Esta história podia ter ficado por Maputo. Mas chegou às mãos de Ana Bárbara Pedrosa, que lhe abriu caminho até à Desmuro.

E aí percebi: não é só uma editora. É um colectivo — gente que acredita que a literatura ainda serve para alguma coisa. Para contar histórias que importam. Para fazer chegar essas histórias às pessoas. E muito mais: para que a cultura reflita a natureza: diversidade e complexidade. Que não se ocupe os vazios históricos com mais vazio e ausência.

A Desmuro, no fundo, faz o papel de um ancião. Como a minha avó. Só que agora a voz não fica no quintal — espalha-se, cruza mundos, fala directo, de tu para tu.

E eu fico aqui, meio espantado, meio feliz, a chegar a ti — e contigo, a mais gente. Porque, no fim, a literatura é isso: pessoas. É nelas que começa. E é nelas que deve ficar.

Já agora, meu nome é Eduardo Quive

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