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Artigo 04 de junho de 2025

Como nasceu o novo livro da desmuro?

Escrevo para partilhar contigo um pouco sobre mim e sobre o processo de escrita do livro Dissecar um Romance: Psiquiatria, Literatura e Mrs. Dalloway.

Eu chamo-me Ana Barbosa Gomes, tenho 27 anos e cresci em Penafiel, uma cidade do distrito do Porto.

Durante a minha infância, fui muito incentivada pelos meus pais à leitura. Na altura, eu ainda não achava muita piada aos livros, era uma criança muito dinâmica (quem me conheceu de pequena reconhece aqui o eufemismo) que preferia atividades no exterior, como as (extremamente prioritárias) de chatear as galinhas da avó, perseguir pintainhos, andar de patins no terraço da casa do avô nas suas horas de sono, fazer acrobacias periclitantes, dançar com música muito alta, jogar Tomb Raider, Dragon Ball e Sonic…

Mais tarde, numa adolescência a exigir um ensimesmar (gosto muito desta palavra, descobri-a um dia num livro que não me recordo, mas que podia apostar ser de Pessoa), reencontrei-me com a literatura. Desde então que acredito que ela contribuiu para me tornar uma pessoa mais compreensiva. De alguma forma, sinto que recolhi tantas histórias de personagens, conheci tantos desencadeares de acontecimentos sem um julgamento áspero, que transportei esta curiosidade neutra pela compreensão da complexa condição humana para o meu dia-a-dia.

Nesta epifania, surge a ideia de escrever sobre a importância da literatura na psiquiatria, conjugando duas das minhas paixões. Para defender esta ideia, achei que seria interessante pegar num livro de uma autora que tivesse experienciado a situação de doença mental. Após alguma pesquisa, emerge o dissecar não de um cadáver, mas de um romance: Mrs. Dalloway de Virginia Woolf; rico em questões ainda hoje vigentes, como a da condição humana, o estar-doente, o papel da mulher na sociedade do século XX, a ética do cuidar, o estigma da doença mental e a falência dos métodos médicos reducionistas.

A escrita deste livro deu-se ao longo de quatro anos, em processos muito distintos.

Ao longo de 2022 e 2023, o último ano letivo do mestrado integrado em medicina, o manuscrito foi uma companhia e um escape, a minha forma de evadir de um ano de muitas exigências. Escrevi-o no meu quarto, de janela voltada para o Jardim Botânico do Porto, na Residência Campo Alegre I. Não sempre de forma solitária — muitas vezes na companhia das minhas colegas de casa de áreas diversas que também me enriqueciam a escrita com as suas vivências tão diferentes. Sempre me senti privilegiada pela oportunidade de multiculturalidade que a residência me proporcionou. Nesta fase, fui também orientada pelo mestre João Freitas, psiquiatra forense, um entusiasta da arte, e pela professora doutora Maria Sampaio, investigadora de estudos literários e uma apaixonada por estudos interdisciplinares. Estas duas pessoas acreditaram em mim e nesta ideia desde o início e nunca deixaram que ela caísse em esquecimento e por tudo isto lhes sou muito grata.

Em 2024, iniciei o meu percurso como médica interna de formação geral na Unidade Local de Saúde de Tâmega e Sousa e decidi dedicar algum tempo a atividades que, enquanto estudante, tendencialmente ficavam para segundo plano. Esta escolha permitiu-me experienciar coisas fundamentais para o meu desenvolvimento pessoal. Desta vez na casa onde cresci, revi o manuscrito por várias vezes, reescrevi partes por inteiro, apaguei secções, acrescentei o que de novo trazia comigo.

Finalmente, em 2025, contactei a editora desmuro, na altura com muito poucas expectativas, mas com uma esperança que não me deixou desistir desta editora cujos valores me captaram. O processo de edição com a desmuro foi muito rico para mim, desde a experiência íntima e humana que me proporcionaram desde o primeiro contacto, ao respeito cuidadoso pela autora, pela obra e pelas futuras pessoas leitoras. O trabalho próximo com a desmuro trouxe dimensões à minha obra que eu procurava sem saber.

Para mim, este livro fomenta uma discussão não apenas científica (pelo recurso às ciências biomédicas), mas também empática (recorrendo às ciências humanas e à expressão artística) da doença mental e do estar-doente. Busquei sempre manter um equilíbrio entre rigor e acessibilidade — quero que este seja um livro para todas as pessoas.

O livro encontra-se em pré-venda no site da desmuro e em julho ele abrirá as asas ao mundo, ficando disponível nas livrarias selecionadas :)

Obrigada por apoiares a minha paixão. Fiz o meu melhor e fui muito feliz a fazê-lo!

Com amor,
Ana