Recusa de Cumplicidade com Instituições Literárias de Israel
A desmuro Editora, e todas as desditoras e escritoras, assinaram de bom grado a carta aberta de "Recusa de Cumplicidade com Instituições Literárias de Israel". A desmuro honra assim os seus valores políticos de se posicionar contra o genocídio na Palestina. Como uma editora independente não iremos trabalhar com entidades cúmplices na violação dos direitos das pessoas palestinianas, entidades que lucrem com as políticas de apartheid israelitas ou entidades que não reconhecem os direitos inalienáveis do povo palestiniano, incluíndo a sua autodeterminação.
Deixamos o convite para todas as editoras, livrarias e artistas literários para assinarem esta carta aberta.
Lista com todos os signatários
Carta em Português
Recusa de Cumplicidade com Instituições Literárias de Israel
Nós, enquanto escritoras/es, editoras/es, trabalhadoras/es de festivais literários e outras/os trabalhadoras/es do sector do livro, publicamos esta carta no momento em que enfrentamos a mais profunda crise moral, política e cultural do século XXI. A avassaladora injustiça que as pessoas palestinianas enfrentam não pode ser negada. A guerra atual entrou nas nossas casas e trespassou os nossos corações.
A emergência está aqui: Israel tornou Gaza inabitável. Não é possível saber exatamente quantas pessoas palestinianas Israel matou desde outubro, porque Israel destruiu todas as infraestruturas, incluindo a capacidade de contar e enterrar os mortos. Sabemos, no entanto, que Israel matou, no mínimo, 43 362 pessoas palestinianas em Gaza desde outubro e que esta é a maior guerra contra crianças deste século.
Trata-se de um genocídio, como têm vindo a afirmar há meses as/os principais académicas/os e instituições especializadas. Representantes oficiais do governo israelita falam claramente das suas motivações para eliminar a população de Gaza, para tornar impossível a existência de um Estado palestiniano e para se apoderarem das terras palestinianas. Isto segue-se a 75 anos de deslocação forçada, limpeza étnica e apartheid.
A cultura tem desempenhado um papel fundamental na normalização destas injustiças. As instituições culturais israelitas, que muitas vezes trabalham diretamente com o Estado, têm sido cruciais para ofuscar, disfarçar e "lavar" através da arte (artwhasing) a desapropriação e a opressão de milhões de pessoas palestinianas durante décadas.
Nós temos um papel a desempenhar. Não podemos, em boa consciência, envolver-nos com as instituições israelitas sem questionar a sua relação com o apartheid e a deslocação forçada de pessoas palestinianas. Esta foi a posição adoptada por inúmeras/os autoras/es contra a África do Sul, foi o seu contributo para a luta contra o apartheid nesse país.
Por conseguinte: não trabalharemos com instituições culturais israelitas que sejam cúmplices ou que tenham permanecido como observadores silenciosos da esmagadora opressão do povo palestiniano. Não colaboraremos com instituições israelitas, incluindo editoras, festivais, agências literárias e publicações que:
- Sejam cúmplices na violação dos direitos das pessoas palestinianas, nomeadamente através de políticas e práticas discriminatórias ou ao branquear e justificar a ocupação, o apartheid ou o genocídio perpetrado por Israel, ou
- Nunca tenham reconhecido publicamente os direitos inalienáveis do povo palestiniano consagrados no direito internacional.
Trabalhar com estas instituições causa dano ao povo palestiniano e, por isso, apelamos às nossas colegas escritoras/es, tradutoras/es, ilustradoras/es e livreiras/os para que se juntem a nós neste compromisso. Apelamos às nossas editoras/es e agentes para que se juntem a nós na tomada de posição, no reconhecimento do nosso próprio envolvimento, da nossa própria responsabilidade moral e para que deixem de colaborar com o Estado israelita e com instituições israelitas cúmplices.
Carta em Inglês
We, as writers, publishers, literary festival workers, and other book workers, publish this letter as we face the most profound moral, political and cultural crisis of the 21st century. The overwhelming injustice faced by the Palestinians cannot be denied. The current war has entered our homes and pierced our hearts.
The emergency is here: Israel has made Gaza unlivable. It is not possible to know exactly how many Palestinians Israel has killed since October, because Israel has destroyed all infrastructure, including the ability to count and bury the dead. We do know that Israel has killed, at the very least, 43,362 Palestinians in Gaza since October and that this is the biggest war on children this century.
This is a genocide, as leading expert scholars and institutions have been saying for months. Israeli officials speak plainly of their motivations to eliminate the population of Gaza, to make Palestinian statehood impossible, and to seize Palestinian land. This follows 75 years of displacement, ethnic cleansing and apartheid.
Culture has played an integral role in normalizing these injustices. Israeli cultural institutions, often working directly with the state, have been crucial in obfuscating, disguising and artwashing the dispossession and oppression of millions of Palestinians for decades.
We have a role to play. We cannot in good conscience engage with Israeli institutions without interrogating their relationship to apartheid and displacement. This was the position taken by countless authors against South Africa; it was their contribution to the struggle against apartheid there.
Therefore: we will not work with Israeli cultural institutions that are complicit or have remained silent observers of the overwhelming oppression of Palestinians. We will not cooperate with Israeli institutions including publishers, festivals, literary agencies and publications that:
- Are complicit in violating Palestinian rights, including through discriminatory policies and practices or by whitewashing and justifying Israel's occupation, apartheid or genocide, or
- Have never publicly recognized the inalienable rights of the Palestinian people as enshrined in international law.
To work with these institutions is to harm Palestinians, and so we call on our fellow writers, translators, illustrators and book workers to join us in this pledge. We call on our publishers, editors and agents to join us in taking a stand, in recognising our own involvement, our own moral responsibility and to stop engaging with the Israeli state and with complicit Israeli institutions.